FONTE: DCI

São Paulo – Responsável por 22% das fusões e aquisições registradas durante o primeiro semestre de 2017 e por 26% das celebradas no último mês de julho, o setor de tecnologia voltou a cair nas graças do mercado e já atraí dinheiro novo. Nos seis primeiros meses do ano, 39 negócios no setor envolveram aporte de players financeiros, indicando o início de um novo ciclo de investimentos.

Compilados pela consultoria PwC Brasil, os dados do primeiro semestre indicam uma presença de capital financeiro 105% maior na comparação com o mesmo período do ano anterior, quando ocorreram apenas 19 transações via private equity envolvendo empresas de TI; durante 2016, ainda de acordo com a PwC, 34 operações do gênero (19 no primeiro semestre) foram registradas. A marca já foi ultrapassada nestes seis primeiros meses.

“Estamos a frente de um novo ciclo de crescimento”, avalia o sócio da PwC, Rogério Gollo. “Diferente de quem compra empresas de TI para incorporar produtos, os players financeiros compram para aumentar rentabilidade e vender. No início de cada ciclo [os primeiros compradores] são sempre os financeiros”, analisa.

“O que ocorre é que agora mudou o dinheiro: se antes havia muito follow-on [aportes subsequentes] e aportes menores, agora há dinheiro e investidores novos”, aponta a CEO e fundadora da boutique de investimentos em fusões e aquisições Sparks Capital, Ana Elisa Bacha Lamounier. Por outro lado, a gestora observa que o segmento tende a liderar rankings de fusões e aquisições “por se tratarem de empresas de pequeno porte, com valores investidos menores.”

Foi o caso de 2016: 17% de todas as 597 operações registradas envolviam a compra de empresas de TI; ainda assim, o montante representou uma retração de 12% frente ao ano anterior (104 negócios contra 118 ao longo de 2015). Quando considerado apenas o primeiro semestre do ano passado, as transações em tecnologia da informação somaram 54, ou 24% a menos que as 67 fechadas entre janeiro a junho de 2017. Em todos os setores da economia foram identificados 300 negócios no mesmo intervalo, entre aquisições, compras, fusões e joint-ventures.

Já em julho, de acordo com relatório da Sparks Capital, 16 transações foram registradas em TI, ou 26% das 62 contabilizadas. “Em termos de negociações significativas houve a Linx”, aponta Ana Elisa. Especializada em softwares de gestão para o varejo, a empresa que adquiriu a [argentina] Synthesis por US$ 16 milhões, podendo investir mais US$ 9,5 milhões no caso do alcance de metas operacionais.

Outro negócio citado pela executiva da Sparks Capital – este anunciado ontem (7) e contabilizado já para agosto – foi a compra da consultoria norte-americana Comrade pela brasileira CI&T, especializada no desenvolvimento de softwares e sediada em Campinas (SP). Os valores da transação, até agora, não foram divulgados à imprensa.

Segundo dados de relatório da Transactional Track Record (TTR), entre janeiro e julho, pelo menos outras seis transações outbound (de empresas brasileiras comprando estrangeiras) ocorreram no setor de TI. Companhias dos EUA, Colômbia, Finlândia e Tailândia estão entre as adquiridas. No sentido contrário, 16 operações inbound (de estrangeiras entrando no País) ocorreram nos mesmos sete meses, com empresas norte-americanas atuando em pelo menos nove negócios.

Menos capital externo…

Foram justamente os aportes de estrangeiros em empresas brasileiras de TI os mais prejudicados pele terremoto político que acometeu o Brasil em 2017, avalia o sócio da PwC, Rogério Gollo. Segundo ele, ao contrário do investidor nacional – que conheceria bem os problemas do ambiente de negócios brasileiro -, o internacional tende a recuar frente aos primeiros sinais de incerteza.

Dados repassados pela PwC Brasil ao DCI confirmam que a participação dos estrangeiros sobre as transações em TI fechadas no primeiro semestre caiu de 31% nos seis primeiros meses de 2016 para 25% – ou um quarto das 67 operações. Em 2015 tal percentual era de 39% ao fim do primeiro semestre.

A percepção, contudo, é que uma reviravolta pode ocorrer diante de sinais robustos da retomada da demanda; segunda Ana Elisa, empresas do Vale do Silício (EUA) e de países como Israel seguem “de olho” em boas oportunidades. “Temos muitas startups de alta tecnologia”, avalia a CEO da Sparks Capital, citando a experiência brasileiras com as fintechs como exemplo recente.

…Mais espaço no Brasil

Com 74 startups na carteira em seis países, o fundo de investimentos Kick Ventures também observa o relativo ‘desinteresse’ de estrangeiros diante do cenário atual do País, tornando o cenário oportuno para “empresas que fazem uma leitura diferenciada”, nas palavras do diretor de estratégia do fundo, Rodrigo Quinalha (a própria Kick possui investidores de países como China e Israel). “Podemos dizer claramente que há mais oportunidades na mesa que capital para investimento disponível”, avalia o gestor, que liderou a ida às compras da Kick neste ano: Hippo Drs, Portal do Médico (ambas de healthcare) e a Unimove (programas de fidelidade) são alguns exemplos de empresas escaláveis e em early stage que receberam aportes do fundo; por outro lado, a empresa conseguiu fazer quatro vendas (ou saídas) no primeiro semestre. O plano é realizar mais duas neste ano, aproveitando o final da temporada de ‘pechinchas’ – que já está próxima do fim de acordo com analistas da PwC e da Sparks Capital.

Diretor de investimentos da CVentures, Leopoldo Lima também relata sondagens de players estrangeiros, mas observa que para eles “há poucas empresas no radar”. Para Lima, o fato de “não haver uma concorrência tão grande torna o momento mais interessante” para players como o CVentures, que tem doze empresas no portfólio – entre elas a Salux, especializada em tecnologia para clínicas e cuja aquisição foi fechada neste ano.

Outro negócio suportado pela CVentures (que gere o fundo CVentures Primus e que já arregimenta capital para um segundo) foi a fusão das empresas de atendimento Direct Talk e Seekr, que resultou na DT + Seekr. “Têm muitas empresas boas no mercado. Quem sobreviveu aos últimos dois anos aprendeu muito”, afirma o executivo.

Henrique Julião | DCI

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