Número de operações de fusões e aquisições cresceu 15,4% nos primeiros 6 meses de 2017, contra igual período do ano passado, enquanto o volume subiu 8,1% para R$ 95 bilhões até junho. Segundo Ana Elisa Bacha Lamounier, CEO-Founder da Sparks Capital, o comportamento dos investidores financeiros ao longo do primeiro semestre ilustra bem a mudança de humor. “Na soma dos meses de fevereiro, março e abril, sua participação no total transacionado (considerando apenas valores divulgados) ficou em torno de 36%, versus uma média de cerca de 23% em 2016”, destaca Ana Elisa .

Abaixo, relatório completo da Sparks Capital:

FUSÕES & AQUISIÇÕES APRESENTA CRESCIMENTO DE 15,4% NO PRIMEIRO SEMESTRE DE 2017, COM 389 OPERAÇÕES

Junho apresentou 64 operações, um pequeno crescimento da quantidade de transações, mas uma expressiva queda do valor, quebrando a recuperação do M&A ensaiada nos meses anteriores.

 

O ano de 2017 começou de forma positiva para a economia, com sinais mais claros de convergência da inflação em direção à meta, seguidos de uma aceleração dos cortes da taxa Selic pelo Bacen. Da mesma forma, a atividade iniciava uma recuperação, ainda que lenta, limitada pelo elevado endividamento do setor privado e desemprego ainda em alta. Na esfera fiscal, em paralelo às negociações para acomodar a complicada situação dos estados e às pressões para reajustes salariais de setores do funcionalismo público, o governo Temer mostrava aos poucos que possuía a maioria no Congresso para aprovar a reforma da previdência, complemento necessário do teto de gastos, ainda que na prática esta tenha perdido parte de seu escopo original, deixando a certeza de que dentro de alguns anos este tema precisará ser revisitado. Independentemente das dificuldades já esperadas para o trâmite da reforma, estava claro que a grande diferença entre o governo Temer e o governo Dilma era a governabilidade do primeiro, a qual fundamentava o gradual aumento de confiança dos agentes econômicos. O cenário mudou radicalmente no mês de maio com as delações dos irmãos Batista envolvendo o presidente Temer e lideranças até então poupadas, como o senador Aécio Neves. A partir de então, o foco do governo passou a ser a manutenção de sua base de apoio, que gradualmente deixa este (impopular) papel, perdendo-se, talvez, a janela para a discussão e aprovação da reforma da previdência. Com risco crescente de não cumprir as metas fiscais estabelecidas, inclusive porque boa parte das receitas depende do fraco nível de atividade, o segundo semestre pode presenciar um aumento de impostos, iniciando-se pela eliminação de subsídios e desonerações tributárias. A reforma trabalhista, ainda que tenha pontos positivos, não altera a dinâmica da dívida pública. Mesmo a importante discussão sobre a taxa de longo prazo (TLP), que substituirá a TJLP, não trará um grande impacto fiscal nos anos de transição. A boa notícia é que mesmo que a situação fiscal fique estagnada, ao menos no curto prazo haverá espaço para a continuidade do afrouxamento monetário, o qual é benéfico para o crédito.

O primeiro semestre termina, assim, com algumas perguntas ainda sem resposta: por quanto tempo Temer permanecerá no poder? Seu eventual sucessor terá governabilidade para seguir com as reformas ou esta discussão ficará para as (imprevisíveis) próximas eleições? Até que ponto a lenta recuperação econômica se seguirá de forma independente dos futuros desdobramentos políticos? Enquanto isso, a economia desenvolvida se recupera e os EUA cedem espaço à China no jogo de poder global.

Dentro deste contexto, as atividades de M&A progressivamente ganharam ritmo, iniciando janeiro com 48 transações, chegando a abril com 95 e mantendo este ritmo até a primeira metade de maio, antes das delações. Após este cisne negro, os investidores reduziram seu apetite à espera de maiores definições na esfera política e o mês de junho encerrou-se com 64 transações. Em termos de valores, o comportamento foi errático no primeiro trimestre, com R$7,2 bilhões em janeiro e março e R$20,7 bilhões em fevereiro, alcançando R$23,3 bilhões em abril e R$21,5 bilhões em maio, este último mês potencialmente seria melhor que abril. Em junho, as operações somaram R$15,1 bilhões, consolidando a perda da tendência de recuperação que vinha sendo observada. No consolidado, o primeiro semestre de 2017 somou 389 operações, 15,4% acima das 337 observadas no ano passado. Em valores, 2017 foi somente 8,1% melhor que 2016, com R$95 bilhões versus R$87,9 bilhões do mesmo período do ano passado (fonte dos dados: site Fusões & Aquisições).

“O comportamento dos investidores financeiros ao longo do primeiro semestre ilustra bem a mudança de humor. Na soma dos meses de fevereiro, março e abril, sua participação no total transacionado (considerando apenas valores divulgados) ficou em torno de 36%, versus uma média de cerca de 23% em 2016”, destaca Ana Elisa Bacha Lamounier, CEO Founder da Sparks Capital. Em maio, este percentual caiu para 20,6% e depois para 11,6% em junho. Do ponto de vista da quantidade de negócios, de fevereiro a junho (o mês mais forte com 39% das operações) os investidores financeiros participaram de 32,4% do total, 30,8% considerando o acumulado do 1º semestre. Ou seja, ainda que não seja possível estabelecer um ticket médio para este investidor, já que há diversas transações sem a divulgação de valores, é possível inferir uma redução do porte dos negócios para este grupo. No caso dos investidores estratégicos, como suas decisões são fortemente baseadas em questões específicas do setor e da empresa-alvo, é difícil estabelecer uma relação linear entre elas e a mudança no cenário político e econômico, ainda que seja evidente que líderes de mercado com capital disponível tenham aproveitado a crise para adquirir empresas concorrentes ou complementares em dificuldades financeiras.

Considerando transações que envolveram grandes players, foram realizados negócios importantes em diversos setores, mas destacam-se os de energia, infraestrutura, saúde e educação, uma vez que estes tendem a continuar aquecidos. Os dois últimos, em particular, passam por um movimento de consolidação: no caso de educação, após uma sequência de transações observadas no ensino superior nos últimos anos, nota-se algo similar em educação básica e profissionalizante. Já no macro setor de saúde tal movimento pode ser visto em diversos elos da cadeia, desde operadoras de seguros, farmacêuticas e centros de diagnóstico até (e principalmente) no setor de hospitais e planos de saúde, onde se observa em alguns casos um aprofundamento da integração vertical, ou seja, o mesmo grupo que opera planos de saúde possui uma rede de clínicas e hospitais próprios. A percepção no mercado é a de que o mesmo movimento de consolidação e captura de sinergias observado no ensino superior nos últimos anos ocorrerá na prestação de serviços de saúde, de forma que ao longo do ano novos negócios devem ser observados. Em menor grau, outro setor que pode presenciar aquisições estratégicas de grandes players é o de segurança privada, ainda pulverizado e resiliente em momentos de crise.

No caso de infraestrutura, as operações estiveram diretamente ligadas às concessões governamentais realizadas e esperadas (rodovias, aeroportos, ferrovias) e à difícil situação financeira de empreiteiras envolvidas em denúncias da Lava Jato, como a Odebrecht e a Triunfo. Os gargalos logísticos do país tendem a continuar movimentando estes setores com a participação de importantes grupos internacionais e gestoras de private equity (destaque para a canadense Brookfield). No caso das empresas de saneamento, boa parte sem condições financeiras para melhorar os serviços oferecidos à população, há expectativa do mercado com a realização de processos de privatização por parte de estados endividados, os quais representariam grandes negócios no setor. Outras concessões e/ou privatizações são esperadas, como no caso da SPTuris, que administra o Anhembi e o autódromo de Interlagos, e da administração de parques e reservas ambientais do país, em que mais de 40 áreas podem ser repassadas à iniciativa privada.

O setor de energia viu, por um lado, a presença de estrangeiros, como as gigantes chinesas, buscando bons negócios com a frágil situação financeira de controladores envolvidos na Lava Jato (Camargo Correa, Odebrecht, Andrade Gutierrez) e de empresas do setor (Cemig, Eletrobrás) que buscam executar seus planos de desinvestimento. Há também expectativas com a privatização da Cesp pelo Governo de São Paulo. Estimativas do Itaú BBA apontam que até 2018 as vendas de ativos das estatais do setor podem somar mais de R$40 bilhões. Por outro lado, a geração de energias renováveis deve continuar atraindo investidores estratégicos e financeiros de capital estrangeiro, dado seu grande potencial no país. Por sua vez, no setor de Óleo e Gás a Petrobras segue com seu plano de desinvestimentos, com meta de R$21 bilhões no biênio 2017-18, podendo gerar novos negócios no segundo semestre.

Outro fator que deve gerar importantes negócios neste ano é o impacto das denúncias de corrupção sobre a holding J&F, dos irmãos Batista. Apenas a JBS pretende levantar R$6 bilhões com a venda de ativos. Considerando Alpargatas (pelo menos R$3 bilhões) e Eldorado (R$3 bi de equity ou R$11 bilhões com a dívida), os desinvestimentos totais podem ultrapassar os R$10 bilhões, restando ainda o Banco Original que também poderá ser vendido.

Entre as transações com valores divulgados informadas nos boletins mensais, abaixo seguem as que superaram R$500 milhões:

  • A chinesa State Grid fechou o contrato para a aquisição do controle da CPFL por R$14,19 bilhões, junto à Camargo Correa, Previ, Fundação Cesp, Sistel, Petros, Sabesprev e Petrobras. Também foi fechada a compra da CPFL Renováveis por R$3,17 bilhões.
  • O Itaú Unibanco fechou a compra por R$5,7 bilhões de 49,9% das ações da plataforma de investimentos XP, mais o aporte de R$600 milhões na empresa.
  • A Thyssenkrupp vendeu a CSA (Companhia Siderúrgica do Atlântico) para a Ternium por €1,5 bilhão, incluindo dívidas.
  • A Natura fechou a aquisição da The Body Shop da L’oreal por €1 bilhão.
  • A Heineken fechou a compra da Brasil Kirin por €664 milhões. Considerando dívidas, a empresa foi avaliada em aproximadamente €1 bilhão.
  • A Restaurant Brands International, controlada pelo fundo 3G Capital e dona do Burger King, adquiriu por US$1,8 bilhões a rede americana Popeyes.
  • A Echoenergia anunciou o acordo para duas aquisições. A primeira refere-se a dois parques eólicos operacionais da Casa dos Ventos que somam 346MW. A segunda refere-se a todos os parques eólicos da Gestamp Renewable Energy no Brasil, com 416MW, sendo mais de 300MW em operação. Os valores não foram informados, mas fala-se em cerca de R$2,5 bilhões por transação, valor que pode sofrer alterações.
  • No setor de titânio, a Tasnee (Saudi Arabia’s National Industrialization) vendeu a operação de dióxido de titânio da controlada Cristal Pigmentos do Brasil para a americana Tronox por US$1,67 bilhão mais 24% de participação acionária na união das empresas.
  • O governo federal realizou o leilão de privatização dos aeroportos de Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre. A empresa alemã Fraport, que está ingressando no país, arrematou dois aeroportos, Fortaleza e Porto Alegre. A Zurich, que tem participação no aeroporto de Confins, ficou com Florianópolis e a francesa Vinci terminou com Salvador. O valor total arrecadado pelo governo na contribuição inicial foi de R$1,46 bilhão, que representa um ágio de 93,6% sobre o valor mínimo, equivalente a 25% da outorga global. Considerando a outorga fixa anual, a arrecadação total chegará a R$3,7 bilhões.
  • A coreana CJ CheilJedang adquiriu por cerca de US$450 milhões 90% da goiana Selecta.
  • No setor de lavanderias industriais, a líder do setor Atmosfera adquiriu a vice-líder Lavebras por R$1,3 bilhão.
  • Em infraestrutura portuária, a Triunfo Participações vendeu por R$1,3 bilhão sua fatia de 50% no terminal Portonave em Navegantes (SC) para a outra sócia Terminal Investment Limited.
  • A norte-americana Aon adquiriu a Admix, que atua com corretagem e administração de planos de saúde, por R$1,2 bilhões.
  • A Renova, que tem Cemig e Light como acionistas, anunciou acordo para vender o complexo eólico Alto Sertão II na Bahia para a AES Tietê, por R$650 milhões.
  • A Braskem anunciou a compra do controle da Cetrel da Odebrecht Utilities por R$610 milhões.
  • A Dasa comprou 100% da rede de laboratórios SalomãoZoppi, por R$600 milhões.
  • A Vitacon vendeu uma fatia majoritária em quatro projetos para o fundo Hines, por um valor próximo de R$600 milhões, 40% antecipados.
  • A Braskem vendeu por R$550 milhões a quantiQ, distribuidora de produtos químicos, à GTM, uma das líderes na América Latina controlada pelo fundo Advent.
  • O GIC (Fundo Soberano de Cingapura) comprou 37% da Cruzeiro do Sul, que pertencia ao fundo Actis, mais 3% que estavam com a família fundadora. Os valores não foram divulgados, mas durante as negociações falava-se em cerca de R$500 milhões.

PANORAMA – MÊS DE JUNHO

Em termos de fusões e aquisições, como dito acima o mês de junho apresentou 64 transações, número 8,5% maior que o de maio. Em termos de valores, os R$15,1 bilhões de junho foram 30% inferiores ao realizado em maio, mas 8,1% acima de 2016 no acumulado do 1º semestre. “Um elemento interessante foi a participação dos investidores financeiros de 39% em quantidade, o maior percentual desde janeiro de 2015, considerando a base do site Fusões & Aquisições. Em termos de valores, contudo, este grupo representou apenas 11,6% do total, como também foi mencionado no resumo do semestre”, reforça Ana Elisa.

A seguir, serão expostas as principais transações envolvendo grandes players para o mês de junho de 2017.

NEGOCIAÇÕES CONCLUÍDAS

No setor de saúde, o grupo Leforte comprou 80% do Instituto Paulista de Cancerologia (IPC), que possui três clínicas. O valor não foi informado. Ainda que a estratégia da empresa tenha foco na expansão orgânica, de acordo com o CEO foram mapeados quatro ativos de SP para aquisição. Por sua vez, os fundos Patria e Blackstone adquiriram 60% do grupo Med Imagem do Piauí por valor não informado. A empresa fatura R$600 milhões e possui operadoras de planos de saúde e dental, 5 hospitais, uma clínica odontológica, laboratórios de diagnóstico, além de importar e distribuir medicamentos e materiais médicos. Com a transação, o Patria pode utilizar a Med Imagem como plataforma de expansão, inicialmente no Nordeste, o que pode envolver novas aquisições. Há também possibilidade de sinergias com a distribuidora de medicamentos Elfa, atuante na Paraíba e controlada pelo Patria. Além disso, a taxa de sinistros das operadoras da Med Imagem é bem inferior à média do setor, tornando-a mais lucrativa que a média. Outra transação foi a aquisição em leilão por R$24 milhões do Hospital Beneficência Portuguesa de Araraquara pelo Grupo São Francisco, que tem o fundo Gávea como dono de 30% das ações. São previstos aportes adicionais de R$20 milhões para recuperar a estrutura física do hospital. Dado o potencial de longo prazo do setor e as oportunidades de consolidação, a crise atual possui um peso menor nas decisões estratégicas do que ocorre em outros setores.

No setor de lácteos, o private equity Arlon Partners adquiriu 20% da CBL Alimentos, que concentra sua atuação no Nordeste e possui as marcas Betânia, Lebom, Jaguaribe, Cilpe e Latimilk, com faturamento de quase R$700 milhões em 2016. O catalisador da transação foi a saída de um dos sócios da empresa. O racional da transação e seu valor não foram divulgados oficialmente, mas fala-se de R$100 a R$120 milhões. Já a irlandesa de compostos lácteos Kerry adquiriu a BEN Alimentos, localizada em Goiás, por valor não revelado. A geração de valor com o negócio virá da ampliação de 40% da capacidade da Kerry, da diversificação de portfólio, já que a BEN possui uma tecnologia de produção complementar (spray drying), e a ampliação do mercado atendido, já que a planta adquirida está localizada num importante polo da região.

Entre os frigoríficos, a JBS vendeu para a Minerva suas operações de carne bovina na Argentina, Paraguai e Uruguai por US$300 milhões. Com a transação, a Minerva assumiu a liderança de mercado no Paraguai e na Argentina e aumentou sua capacidade de abate em 52%. Além disso, comunicou que o pacote fechado encerra o ciclo de expansão da empresa, não havendo mais oportunidades de aquisição em vista. Para a JBS, os ativos, cujo faturamento representa 2% do total mundial e 10% da América do Sul, não representavam o negócio principal – marcas de carne processada – e foram vendidos por um múltiplo EV / EBITDA equivalente ao que a Minerva era negociada em bolsa, ou seja, ignorando os efeitos da corrupção descoberta. Porém, o juiz responsável pela Operação Bullish que investiga desvios do BNDES em benefício da JBS, bloqueou a conclusão da venda como medida cautelar.

No mercado de franquias de alimentação, a holding de redes Halipar (Griletto, Montana, Jin), que tem como sócia minoritária a gestora G5 Evercore, adquiriu o controle da Croasonho, por valor não divulgado. Do ponto de vista da Halipar, a transação complementa o portfólio e também cria oportunidades de diversificação para os franqueados. Para a Croasonho, que hoje é focada na Região Sul, abre-se uma oportunidade de expansão para o Sudeste.

No setor de cosméticos, a Natura fechou a aquisição da The Body Shop da L’oreal por €1 bilhão, a serem pagos em dinheiro a partir da emissão de dívida – o que fez a S&P colocar o rating da empresa com perspectiva negativa. A transação traz um impacto significativo na brasileira: aumento de 45% da receita para R$11,5 bilhões, mais de 3 mil pontos de venda em 66 países (109 no Brasil) e aumento de cerca de 12 mil funcionários, de 5.000 para 17.000. A avaliação da transação por analistas aponta riscos como a pouca experiência da Natura administrar lojas físicas, num contexto em que a The Body Shop apresenta estagnação e requer uma reformulação, ao mesmo tempo em que as vendas diretas da brasileira já não são mais capazes de sustentar seu crescimento como no passado. Do ponto de vista da Natura, trata-se de uma marca complementar, com oportunidades de receita pelo canal de vendas diretas, alinhada em valores e que possibilitará à Natura tornar-se uma líder global. Há também a perspectiva de obter economias de escala e acessar a cadeia mundial de suprimentos.

Na indústria de alimentos, a coreana CJ CheilJedang, que fatura US$30 bilhões, adquiriu por cerca de US$450 milhões 90% da goiana Selecta, sendo 30% de minoritários e 60% da controladora chilena Corpesca que possuía 70%, com opção de venda dos 10% restantes em dois anos. A Selecta produz ingredientes de soja para ração animal e derivados de soja para as indústrias alimentícia e química, faturando em torno de US$360 milhões. A empresa coreana pretende ampliar em 50% a capacidade produtiva da Selecta e diversificar seu portfólio com a aplicação de sua tecnologia. Outro investimento estratégico foi da empresa israelense Frutarom, de ingredientes e sabores finos, que comprou 80% do grupo SDFLC, um dos principais players de sorvetes e sobremesas do Brasil. O objetivo da transação de R$110 milhões para a Frutarom é penetrar no mercado nacional.

No setor de facilities, o GPS (Grupo Predial de Serviços) acertou a compra da Graber, que atua com vigilância, monitoramento eletrônico, terceirização de portaria e rastreamento. O valor não foi divulgado, mas para a transação o GPS recebeu aporte da Gávea Investimentos, tendo com isto dois fundos como sócios, o outro é o Warburg Pincus. O objetivo é fortalecer a GPS no segmento de segurança patrimonial. O faturamento combinado das empresas será de cerca de R$3 bilhões. Do ponto de vista dos investidores financeiros, o setor é atrativo devido à alta fragmentação, potencial de crescimento e característica defensiva, no sentido de ser menos afetado pela conjuntura econômica atual.

Em educação, a Wise Up comprou por valor não informado 100% da Number One, focada no ensino de idiomas a crianças e adolescentes. Foi a primeira aquisição da empresa, que teve 35% de participação vendida recentemente para Carlos Wizard. O objetivo é duplicar o número de lojas no país até 2020 e novas compras não estão descartadas. Por sua vez, o Grupo Prepara de franquias de ensino (Prepara, English Talk, Pingu’s English e Ensina Mais) adquiriu da Pearson as franquias Microlins, SOS e People, por valor não divulgado. Com a transação, o Grupo Prepara alterou seu nome para Move Edu e sairá de 600 para 1200 franquias, tendo 400 mil alunos e faturamento de R$600 milhões. A motivação estratégica foi a demanda por cursos profissionalizantes, que segundo o presidente da Move Edu tem um alto potencial, em comparação com a Europa – 8,4% das pessoas entre 13 e 25 anos fazem cursos profissionalizantes no Brasil, contra 49% na Europa. Já a Pearson, que adquiriu do Grupo Multi estas franquias, além das escolas de inglês Wizard, Yázigi e Skill, tinha interesse em permanecer somente com as últimas.

No setor de energia, a Prumo Logística comprou uma usina térmica da Bolognesi, assumindo sua construção e operação, com 1.238 MW de potência. Juntamente com outra usina, esta havia sido vendida pela Bolognesi em leilão de 2014, para entrega em 2019-20 ao preço de R$206,50 por MW/hora, mas o impacto da crise sobre o câmbio e o crédito impossibilitaram a execução do projeto, estimado em R$3 bilhões. Nos EUA, a brasileira WEG anunciou acordo para adquirir por US$37 milhões a CG Power USA, que atua com a produção de transformadores. O objetivo é penetrar no mercado americano de energia renovável, atendendo projetos de energia eólica e solar naquele país, além de se proteger do protecionismo de Trump, uma vez que a produção é feita nos EUA.

Em infraestrutura portuária, a Triunfo Participações vendeu, por R$1,3 bilhão, sua fatia de 50% no terminal Portonave em Navegantes (SC), segundo maior do país em movimentação de contêineres, para a outra sócia Terminal Investment Limited. A transação faz parte do plano de desinvestimentos da Triunfo para reduzir seu elevado endividamento (R$1,8 bilhão tem vencimento já em 2017), em princípio fora do core business que são as concessões rodoviárias.

No mercado de aplicativos de transporte, dominado pela Uber com pelo menos 60% de market share, a Cabify e a Easy anunciaram a união de suas operações, com o objetivo de capturar sinergias e criar novos produtos. Não foram divulgados valores nem a nova estrutura societária. As marcas continuarão a operar separadamente, mas num modelo de holding comandado pelo fundador da Cabify Juan de Antonio. Dos players do setor, a Easy foi a empresa que avançou menos no segmento de carros particulares.

No setor de comunicação, a Globosat e a norte-americana Vice Media anunciaram a criação da joint venture Vice Brasil, na qual a brasileira será minoritária. O objetivo é criar e distribuir conteúdo de mídia com foco em comportamento (música, esportes, moda, etc.) voltado à faixa de 18 a 34 anos. A Vice Media, que tem a Disney como sócia (18% das ações) e cujo valor estimado é de US$5,7 bilhões, é uma das principais produtoras de conteúdo do mundo para o público jovem e realizou acordos semelhantes ao descrito em países como Canadá, Austrália, Índia, entre outros países inclusive do continente africano e Oriente Médio. Anunciou também neste mês o aporte de US$450 milhões do private equity TPG.

Entre as startups, a Avante recebeu aporte de R$38,6 milhões do grupo Gentera, que atua com inclusão financeira no México, Peru e Guatemala, e da gestora de investimentos de impacto Vox Capital. A Avante fornece microcrédito, máquinas de cartão e conta corrente a empreendedores de baixa renda e visa com o aporte financiar seu crescimento no Brasil (de 30 mil clientes a 1 milhão em 2021) e desenvolver um smartphone para realizar de forma móvel todos os serviços financeiros da Avante.

NEGOCIAÇÕES EM ANDAMENTO EM JUNHO

A seguir, serão expostas novas negociações em andamento, com relação ao mês anterior, bem como atualizações relevantes daquelas iniciadas antes do presente mês.

Entre os destaques estão as empresas da holding J&F, cujo valor potencial de venda pode representar, segundo cálculos de um banco (não divulgado), 20% da atividade de M&A de 2017, chegando a um número próximo de R$20 bilhões.

No setor de celulose, o processo de venda da Eldorado Brasil, controlada pela J&F (81%), Funcef e Petros, tem negociações intensas e pode alterar a dinâmica competitiva do setor, dado o porte da empresa e o fato de que, para estrangeiras, operar no Brasil é interessante pela elevada produtividade do solo. A chilena Arauco, que não opera no Brasil, teria feito uma oferta não vinculante de R$11 bilhões (incluindo a dívida de R$8 bi) pela empresa e já possui acordo de confidencialidade para avaliar o negócio. A Fibria, líder mundial na produção de celulose de eucalipto de fibra curta, já teria apresentado uma oferta e pode inclusive se associar à Arauco na operação. A Suzano também possui interesse, mas não há informações de ofertas indicativas. Para a Fibria, uma eventual transação traria sinergias bilionárias nas operações logística e florestal, uma vez que sua planta está no mesmo local da Eldorado. Em total de vendas, a Arauco fatura cerca de R$15 bilhões, contra R$9,6 bi da Fibria e R$2,9 bi da Eldorado. A expectativa do mercado quanto às negociações é que devem ser longas, por conta das investigações sobre os esquemas de corrupção que envolvem os controladores. O acordo de leniência torna ainda as empresas da J&F corresponsáveis pela multa de R$10,3 bilhões, caso a holding não consiga pagar este valor. Para o Itaú BBA, as ações da Eldorado valem entre R$1,8 bi a R$2,5 bi, sem incluir sinergias potenciais.

No setor de educação, a Eleva Educação, holding de ensino básico de Lehman e do fundo Gera, está em negociações avançadas para receber aporte de aproximadamente R$300 milhões do private equity Warburg Pincus, equivalente a 25% do capital próprio. Entre os objetivos estão o financiamento de novas aquisições no setor, priorizando marcas fortes com potencial de crescimento orgânico em suas regiões, bem como proporcionar liquidez aos sócios atuais.

Em energia, após algumas idas e vindas o conselho da Cemig aprovou a venda dos 43% que a empresa possui na Light, com o objetivo de reduzir seu elevado endividamento – R$4,7 bilhões vencem já neste ano. A possibilidade da entrada de um investidor privado melhora as perspectivas do mercado com relação à Light. No início do mês, a Cemig anunciou seu plano de desinvestimentos, pretendendo obter entre R$3 e R$3,5 bilhões até o primeiro semestre de 2018, valor abaixo do valor patrimonial dos ativos colocados à venda.

No setor de shopping centers, um consórcio de investidores internacionais (PSP e Brookfield do Canadá, GIC de Singapura, entre outros) está negociando a fusão de alguns de seus shoppings com uma grande empresa do setor, não divulgada. O portfólio em questão vale em torno de R$3 bilhões e inclui o Pátio Paulista, West Plaza, Madureira Shopping e Raposo Shopping. O objetivo é encontrar um parceiro estratégico, capaz de extrair sinergias dos ativos e crescer.

No varejo, a Máquina de Vendas está negociando com bancos credores (Bradesco, Itaú e Santander) uma reestruturação de suas dívidas de R$1,4 bilhão, que pode significar uma transferência de controle da empresa para estes credores, em vez de levar a Máquina à recuperação judicial, após a crise agravar uma já delicada situação financeira. Segundo o plano delineado, seria criada uma holding que controlaria a Ricardo Eletro (principal varejista do grupo) e assumiria a dívida que hoje está debaixo desta rede, reduzindo seu risco financeiro, que no nível atual prejudica a empresa nas relações com fornecedores e demais parceiros. No segmento das livrarias, há rumores de que a Amazon estaria interessada na Saraiva, cujo negócio é avaliado em R$650 milhões. O objetivo da varejista americana seria utilizar os pontos físicos da Saraiva para a distribuição de produtos de tecnologia, como forma de acelerar o crescimento de sua operação no Brasil.

No setor de infraestrutura, o Fundo Mubadala apresentou proposta firme pelo controle da Invepar, o que envolve a compra da participação de 24,4% possuída pelos credores da OAS e aproximadamente 26% dos fundos de pensão Previ, Petros e Funcef, que possuem 25% da empresa cada. Estima-se que o valor a ser pago pelos 51% da Invepar fique entre R$2 e R$2,5 bilhões. Fala-se no mercado que, dado o alto endividamento da companhia (R$7,6 bi de dívida líquida), a troca de controle pode se dar por meio da entrada de capital, com a diluição dos atuais sócios da OAS. A efetivação da negociação geraria ainda R$270 milhões à OAS com a venda das ações pelos credores, segundo previsto no plano de recuperação judicial. No caso da Odebrecht, o grupo estaria em negociações avançadas para vender sua construtora para um grande grupo chinês não divulgado e assinou (Odebrecht Transport) acordo de exclusividade com a Brookfield para a compra de 7 rodovias onde a brasileira possui participação. Em três destas, a Invepar mencionada acima é sócia. Eventuais aquisições seriam realizadas pela Arteris, empresa da Brookfield e da espanhola Abertis.

No mercado financeiro, o Santander avalia a compra do Banco Original, controlado pela holding J&F, que possui R$8,2 bilhões em ativos e tem atuação relevante no setor de agronegócio, considerado prioridade para o banco espanhol. O processo de venda, contudo, pode enfrentar dificuldades devido à dívida de cerca de R$3,5 bilhões que o Original possui com o FGC (Fundo Garantidor de Crédito), referente à compra do Banco Matone em 2011, dívida esta que é superior ao valuation esperado do Original, que teria como teto o valor de R$2,1 bilhões de seu patrimônio líquido. O contrato desta dívida implica que uma mudança no controle do banco precise da aprovação do FGC. O catalisador desta transação seria o envolvimento dos irmãos Batista em esquemas de corrupção. No caso da venda do Banco Patagônia pelo Banco do Brasil, um dos interessados, Itaú Unibanco, decidiu não realizar uma oferta vinculante. No mês de abril, havia sido informado que o Banco do Brasil recebeu ofertas não vinculantes superiores a US$1,35 bilhão pela sua participação de aproximadamente 59% no argentino Banco Patagonia. As maiores ofertas até então eram oriundas do Itaú Unibanco, Bilbao Vizcaya, Argentaria AS e Banco Macro AS.

No setor de alimentos, como parte dos desinvestimentos da JBS, a Vigor encontra-se em fase inicial do seu processo de venda e foi oferecida a empresas como Danone, Lactalis, a mexicana Lala e a suíça Emmi. Ainda não há informações de propostas e prazos, mas uma eventual transação implicaria também numa mudança de controle da Itambé, que tem 50% das ações em posse da Vigor, sendo o restante da Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais (CCPR). Além da Itambé, a Vigor é dona das marcas Danúbio e Leco e fatura mais de R$5 bilhões.

Em bens de consumo discricionários, a Apargatas teria assinado um acordo para negociar sua venda ao fundo Cambuhy, até então o principal interessado, mas divergências sobre o valor da oferta versus valor esperado pela J&F podem encerrar as conversas. O fundo tentou em 2015 adquirir a empresa da Camargo Corrêa, mas a J&F acabou vencendo a disputa pagando R$2,7 bilhões pelo controle, com financiamento da Caixa Econômica Federal. Tanto no caso da Alpargatas quanto da Vigor acima, a venda das empresas precisa do aval do Bradesco e da CEF, que possuem ações das empresas como garantia da dívida da J&F. Com a venda, a J&F precisaria pagar os empréstimos antecipadamente.

Na indústria sucroalcooleira, a Raízen Energia fez uma proposta vinculante de R$823 milhões por duas usinas da Tonon Bioenergia. A proposta foi aceita pelos credores da empresa em recuperação judicial, mas sujeita à desistência pela Raízen de condições exigidas, como não ter de assumir a renegociação de entregas não cumpridas de biomassa para a Rhodia e a Brookfield. Para a Raízen, as razões do interesse são a localização das usinas, por ficarem próximas das áreas cultiváveis, bem como uma capacidade de moagem de 4,9 milhões de toneladas por ano.

No setor de hotelaria, a Intercity Hotels, sexta maior administradora do país com 5.000 quartos e 35 hotéis, e a DoisPontoZero, pertencente à gestora HSI Investimentos, estão em negociações avançadas para uma fusão que criaria o terceiro maior player nacional do setor, depois da Accor e da Choice. O contexto desta tentativa é o de uma vacância bastante elevada nos hotéis.

Em saúde, a holding Hospital Care dos fundos Bozano (70%) e Abaporu (30%) está prestes a anunciar um acordo para a compra do Hospital São Lucas de Ribeirão Preto, controlado (70%) pelo médico Pedro Palocci, irmão do ex-ministro. A transação estaria em linha com sua estratégia de adquirir hospitais de alta complexidade em regiões de alta renda e estender seu escopo para atendimentos de baixa complexidade. Somada à aquisição recente do Hospital Vera Cruz (Campinas), a Hospital Care estaria investindo R$600 milhões em ambos os negócios. Em face do processo de consolidação já iniciado no setor, a holding paralelamente está criando seu modelo de gestão (cultura, orçamento base zero, CSC) voltado a capturar com mais eficiência sinergias operacionais.

CADE

O Cade rejeitou a fusão entre a Kroton e a Estácio, após mais de um ano de negociações. Em resposta aos duros remédios impostos pela relatora do caso, a Kroton havia oferecido abrir mão de 250 mil alunos (presenciais e EAD), mas os demais conselheiros alegaram que, mesmo que o market share resultante fosse inferior a 20%, ainda haveria incentivos para a oferta de cursos com qualidade questionável, influenciando o resto do mercado, num setor importante do ponto de vista social.

Estudo realizado pela butique Sparks Capital, com base nos dados de mercado.

Crédito imagem: Jô Mantovani

 

 

 

 

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